DE SENECTUTE

Pai, mãe, quatro filhos, quatro netos e uma nora

Pronto. É sôbre a velhice que quero falar. De repente me dei conta que estou ficando, ou já fiquei, velho. Já me flagrei contando história que aconteceu há mais de sessenta anos. Em pleno dia do aniversário de São Paulo, estou pensando onde eu estava no quarto centenário, há cinquenta e seis anos atrás. Naquele dia acordei na casa de um senhor de nome Hamilton R. Cioffi, que era o coletor de rendas em Mandaguaçú, norte do estado do Paraná. Ao som de um dobrado, marcha militar, que tocava em um rádio ou no serviço de alto-falante, marca inconfundível em toda cidadezinha, no interior do Brasil. Recordo-me que eu ainda não era um cidadão brasileiro, pois, como todo nordestino da época, meu pai não havia me registrado,  assim como meu irmão, Orlando, três anos mais velho.

Nessa casa onde amanheci, trabalhávamos eu e minha irmã, Mundinha. Ela, doméstica de copa e cozinha e eu, pequenos serviços domésticos, pau pra toda obra e uma espécie de office-boy. Dormíamos no emprego pois o restante da família, pai, madrasta e um casal de irmãos moravam em uma fazenda de café, onde aguardavam vaga para entrar no colonato, espécie de empreitada onde cada família se responsabilizava por certa quantidade de pés de café, até a colheita final.

Êsse tema, velhice, deveria ter sido escrito no natal de 2008, com título que li por aí: “Só na velhice a mesa fica repleta de ausências”. Mas como em novembro daquele ano eu falava sôbre temas alegre, eleição de Barack Obama, a semelhança do Fabiano com o recem eleito presidente dos Estados Unidos, etc não quis falar em seguida sôbre coisas tristes e que poderia soar para a família  como reclamação por desprezo e abandono ou esquecimento. É claro que mesmo tendo esse sentimento, não devo reclamar pois faz parte da minha “trajetória artística” essas passagens por extremos.

Em 1953, quando vim da Bahia, viajei em um “pau de arara”, perambulando durante quinze dias até São Paulo, e mais dois dias de trem e com fome, até Santo Anastácio, onde dormimos em uma escadaria da estação, por generosidade do subchefe da estação. Ia completar 12 anos. Já em 1971, ao término de um curso de microondas, nos Estados Unidos,  viajei entre Dallas e Nova York, em um boing 747, num vôo do meio dia, onde se podia escolher pato à Califórnia ou hot turkey a mornée durante o almoço.

Anos atrás as festas natalinas eram comemoradas, aqui no sítio onde moro, com mais de trinta pessoas, todos parentes próximos, como sogros, cunhados, filhos, netos, genros e noras. Em 2008, na ceia de natal, além dos quatro moradores, só havia uma única visita, minha neta a Carol.

Quando a mesma cena se repetiu, no natal de 2009, fui me deitar mais cedo e nem esperei a meia noite para os cumprimentos de praxe entre os outros moradores. Acordei com o barulho dessa turma no quarto, com um feliz natal meio chocho.

No dia seguinte fiquei matutando sôbre o ano novo. “Já sei: ninguém virá, a Carol deverá ir-se embora pois já é mocinha e deve ter seus compromissos com as coleguinhas, praia, etc.

Antevi a nova cena, no natal saimos de uma mesa de cinco metros para uma de dois e meio. No ano novo iremos para uma mesinha de um metro e meio pois seremos apenas quatro. Minha filha já tinha previsto que só viria depois do dia dois pois o casal de netinhos tinham compromisso com o pai e só poderiam vir depois dessa data. Durante toda a semana choveu muito, pontes cairam, a passagem de nível estava interrompida, minha cunhada e sua família já tinham desistido de vir. Tudo levava a crer que seria aquilo mesmo – solidão total e festa de ano novo em clima de velório.

Acho que, de tanto pensar na problemática, o universo conspirou a meu favor e, já na quinta feira fiquei sabendo que meu filho mais velho estava vindo com sua esposa e meu netinho Daniel (gringo). Deduzi que minha filha e o casal de netinhos também estavam vindo e não disseram nada para fazer surpresa para vovô e vovó. Mas ela não pôde vir por alguma razão, mas veio no primeiro de ano, alterando para melhor a nossa grande festa e ainda proporcionando ao casal de velhos uma alegria não prevista e que nunca tinha acontecido aqui no sítio – a reunião de toda a família: pai, mãe, seus quatro filhos, quatro netos e uma nora. Os moradores, que viviam na solidão de um quarteto, agora éramos onze, um verdadeiro time da alegria: Thifaluja Futebol Club.

Desta data em diante, o coração bi-infartado do “velhinho” aposentado, que só “apanhava”, passou a bater outra vez, mais compassado e com a mesma cadência com que Cartola diria: “Bate outra vez, com esperanças o meu coração…”

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Prolegômenos

   

    Na apresentação do meu blog, eu disse que a finalidade do mesmo era tentar aprender os mistérios da internet, bem como transmitir alguma experiência ou aprendizado adquiridos ao longo de minha trajetória artística. Citei vários assuntos que gosto, como eletrônica, física quântica, metalurgia, etc.
    Todavia, depois de mentalmente ensaiar alguns textos, cheguei a conclusão que devo começar mesmo é falando sôbre a velhice. É o assunto que eu  entendo e estou aprendendo cada dia mais. Nota-se pelo título deste texto que eu poderia ter escrito introdução. Mas como fiquei velho e gosto de palavras antigas e bonitas, preferi escrever prolegômenos, que soa melhor além de dar um toque mais sério ao assunto, embora pareça pernóstico.
     Posso dividir a minha “trajetória artística” em dois períodos ou fases bem distintas: antes dos sessenta e depois dos sessentas ou, melhor dizendo, antes do enfarte e depois do enfarte – tive o primeiro enfarte aos sessenta anos. Foi aí que pude verificar que a vida tinha mudado e que eu não era mais o mesmo. Já na uti coronariana da unesp de botucatu, onde fiquei por onze dias, constatei que só pensava no passado ou nas coisas passadas da minha vida; nas histórias que os mais velhos me contavam quando eu era jóvem; pronto … fiquei velho,  pensei; se sair desta com vida serei apenas mais um contador de história e nada mais… estarei “misturando estações”, expressão que se usava para velhos radioamadores do tempo das válvulas termoiônicas, nos idos dos anos cinquenta e sessenta.
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